terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Pureza disfarçada desse canil humano...

Pureza disfarçada desse sangrento canil humano, dessa profana cachorrada consagrada...    

Aí, vão dizer que eu era isso e aquilo outro, grande amigo e poeta amoroso, consagrado literato, inesquecível cidadão;

Aí, vão sorrir da minha forma de nada dizer, com as coisas sem graça, e de não sorri com as coisas engraçadas;

dizer que eu reclamava de tudo, e que nem essa, nem aquela vida levava;

Aí vão lembrar que meus amores eram as flores, que meu melhor prazer era escrever, ler e amar; mas não amar só uma ou outra, porque amar a todas as mulheres, isso sim, é que é saber amar; Loucura? Quem diz que amar todas as mulheres é loucura, é a mulher.

Aí, cheios de graça, sorridentes e felizes, vão dizer que "aquilo era que era amigo", porque, se não elogiava, pouco ou nada falava, do que quer que fosse, não lhe era próprio maldizer;

Aí, de repente, só por implicância, vão ficar em silêncio, para aquela homenagem intempestiva prestarem. Na verdade, deviam ficar sem dizer nada, porque sem nada dizer, era o melhor a fazer;

Aí vão dizer que têm saudade, que as flores já não são as mesmas, que a poesia ficou mais pobre, e que a literatura está de luto e chora;

Aí, quem diria, vão divulgar sua poesia, e nos sarais ser presença constante, seus versos nas bocas dos estudantes, e nos bilhetes dos amantes;

Aí, já morto, já será poeta famoso, não vendo e nem sentido mais nada, de como outrora.., sem nunca ter podido desfrutar do que preferiu, já bem longe de todos e ainda sem vontade de nada dizer, vai mandar todos pra corja que os serviu...

Ai, será sua vez de esnobar, desdenhar as falsas oferendas vis, de quem, cheios de falsidade, maldades, pregam o amor e a paz, em nobre eloquência, nesses discursos de pilatos, com a sandice e a falsidade de judas, e toda aquela arruaça de Caifás, Barrabás;

Já bem longe, muito longe, ainda sem nada dizer, me pego sorrindo, soltando belas gargalhadas, livre dessa cambada, que nada têm para oferecer e que usurpam, tiram do seu coração, da sua alma e do seu espírito a paz, o amor, até mesmo depois do gélido abraço da sagrada companheira morte, que nos acolhe, quando, fim sagrado ou profano dos homens de bem, a vida os enxota...

E aí, inventam velar pelo falecido, quando, na verdade, já foi há muito tempo esquecido, desprezado, porque, quando vivo, foi pouco lembrado - muito, contudo, cuspido, escorraçado e apedrejado por essa imundice dissimulada, desse sangrento canil humano, dessa profana cachorrada consagrada!

(jose valdir pereira)



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