sábado, 5 de março de 2022

A poesia do Norte e a poesia do Sul

 


 

Madame de Stäel

 

            Existem, a meu ver, duas literaturas completamente distintas, a que vem do sul e a que vem do norte; a que tem em Homero a sua origem e a que se inicia com Ossian. O gênero de literatura próprio dos gregos, dos latinos, dos italianos, dos espanhóis e dos franceses do século de Luís XIV é aquele a que chamarei literatura do sul. As obras inglesas, as alemãs e algumas dinamarquesas e suecas devem ser incluídas na literatura do norte, que principiou com os bardos escoceses, com as fábulas islandesas e com as poesias escandinavas. Antes de caracterizar os escritores alemães, parece-me necessário examinar sumariamente as principais diferenças entre os dois hemisférios literários.

            Não há dúvida de que os ingleses e os alemães imitaram repetidamente os antigos. Extraíram ensinamentos proveitosos do estudo fecundo que deles fizeram; mas as suas belezas próprias, que mostram a influência da mitologia do norte, possuem uma espécie de analogia e certa grandeza poética de que Ossian é o primeiro modelo ideal. Poder-se-á dizer que os poetas ingleses são notáveis pelo seu espírito filosófico; esta particularidade está presente em todas as obras; mas Ossian quase não faz reflexões; ele narra uma série de acontecimentos e de impressões. A esta objeção gostaria de responder que as imagens e os pensamentos mais comuns em Ossian são os que lembram a brevidade da vida, o respeito pelos mortos, a exaltação da sua memória e o culto dos que permanecem vivos pelos que já se foram. Se o poeta não acrescentou aos seus sentimentos nem máximas de moral nem reflexões filosóficas, é porque naquela época o poder de abstração do espírito humano ainda não era suficiente para produzir muitos resultados. Mas a comoção que os cantos ossiânicos causam à imaginação predispõe o pensamento às meditações mais profundas.

            A poesia melancólica é a que está mais em consonância com a filosofia. A tristeza permite penetrar no caráter e no destino do homem muito antes de qualquer outro estado de espírito. Os poetas ingleses que sucederam aos bardos escoceses acrescentaram às suas evocações as reflexões e as idéias que essas evocações eventualmente suscitassem; mas eles conservaram a imaginação do norte, aquele tipo de imaginação que se deleita em estar à beira-mar, com o sussurro dos ventos e as urzes selvagens; aquela, enfim, que transporta até o futuro, até outro mundo, a alma enfastiada com o seu destino. A imaginação dos homens do norte lança-se vertiginosamente para além da terra cujos confins eles habitam; lança-se através das nuvens que orlam o horizonte e que parecem representar a passagem obscura da vida para a eternidade.

            Não é possível decidir, de maneira geral, entre os dois gêneros de poesia de que Homero e Ossian são como que os primeiros modelos. Todas as minhas impressões e todos os meus juízos levam-me a optar, de preferência, pela literatura do norte; mas o que importa agora é examinar em ambas os traços distintivos.

            O clima é, certamente, uma das razões principais das diferenças que existem entre as imagens do norte que mais nos agradam e as do sul que tanto gostamos de recordar. Os devaneios dos poetas podem inventar coisas extraordinárias; mas as sensações comuns estão necessariamente em tudo o que se cria. Evitar a lembrança dessas sensações equivaleria a perder a maior parte das vantagens que é a de expressar o que o próprio autor vivenciou. Os poetas do sul mesclam constantemente a imagem da frescura dos bosques frondosos e dos límpidos regatos com todos os sentimentos da vida. Nem sequer os prazeres do coração eles descrevem sem deixar de lhes acrescentar a idéia da sombra  benfazeja que os protegerá do calor ardente do sol. A natureza tão exuberante que os rodeia desperta-os mais para a ação do que para o pensamento. Foi erradamente, a meu ver, que se disse serem as paixões mais violentas no sul que no norte. Observa-se lá maior diversidade de motivações, mas menos constância num mesmo pensamento; ora é a fixidez que produz os milagres da paixão e da vontade.

            Os povos do norte são menos absorvidos pelos prazeres do que pela dor, e a sua imaginação é mais fecunda por essa razão. O espetáculo da Natureza age intensamente sobre eles; a Natureza age tal qual se mostra naqueles climas, sempre sombria e nebulosa. As diversas circunstâncias da vida podem, por certo, variar esta disposição para a melancolia; mas só por si exprime a principal peculiaridade do espírito nacional. Basta procurar num povo, da mesma forma que num homem, o seu traço característico; todos os outros são o efeito de mil acasos diferentes; somente aquele constitui o fundamento do seu ser.

            A poesia do norte convém muito mais do que a do sul ao espírito de um povo livre. Os primeiros autores conhecidos da literatura do sul, os atenienses, pertenceram à nação que, entre todas do mundo, mais prezava a sua independência. Não obstante, era mais fácil habituar os gregos à servidão que os homens do norte. O amor às artes, a amenidade do clima e todos os gozos prodigalizados aos atenienses podiam servir-lhes de compensação. A independência era a principal e única felicidade dos povos setentrionais. Certa altivez de caráter, certo desapego pela vida que a aridez do solo e a tristeza do céu ocasionam faziam a servidão insuportável; e muito antes da teoria das constituições e a superioridade dos governos representativos serem conhecidas na Inglaterra, o espírito guerreiro que as poesias erses[1] e escandinavas cantam com tanto entusiasmo, dava ao homem uma idéia prodigiosa da sua força individual e do poder da vontade. A independência já existia em cada um, antes da liberdade ter sido estabelecida para todos.

            A filosofia, quando do renascimento das humanidades, começou pelas nações setentrionais, em cujos hábitos religiosos a razão enfrentava infinitamente menos preconceitos que nos dos povos meridionais. A poesia antiga do norte traz em si muito menos superstição do que a mitologia grega. Existem alguns dogmas e fábulas absurdas no Eda[2]; mas quase todas as idéias religiosas do norte condizem com a razão apaixonada. As sombras debruçadas nas nuvens são tão só reminiscências estimuladas por imagens perceptíveis.

            As emoções produzidas pelas poesias ossiânicas podem repetir-se em todas as nações, pois aquilo com que logram comover-nos vem da própria Natureza; porém só um talento prodigioso consegue introduzir sem afetação a mitologia grega na poesia francesa. Não há nada mais afetado e amaneirado em geral do que dogmas religiosos transplantados para um país onde são considerados apenas como metáforas engenhosas. A poesia do norte raramente é alegórica; nenhum dos seus efeitos precisa das superstições locais para despertar a imaginação. Um entusiasmo ponderado ou uma exaltação genuína podem agradar  igualmente todos os povos; é a verdadeira inspiração poética que todos corações têm capacidade para sentir, mas exprimir somente com o dom do gênio. Ela gera um estado de devaneio celestial que se enamora da natureza ao ar livre e da solidão; aproxima muitas vezes o coração das idéias religiosas e, nos seres privilegiados, estimula o culto das virtudes e a intuição de pensamentos elevados.

            Tudo o que o homem fez de grande deve-o ao sentimento doloroso de que o seu destino é incompleto. Os espíritos medíocres, na sua generalidade, sentem-se bastante satisfeitos com a trivialidade da vida; preenchem, por assim dizer, a existência e suprem o que sentem que ainda lhes falta com as ilusões da vaidade; mas o que existe de sublime no espírito, nos sentimentos e nas ações nasceu da necessidade de escapar aos limites que cerceiam a imaginação. O heroísmo da moral, o entusiasmo da eloquência e a ambição da glória proporcionam prazeres singulares dos quais apenas as almas simultaneamente exaltadas e melancólicas necessitam, almas fatigadas de tudo o que tem uma medida, de tudo o que é passageiro, enfim, de tudo o que significa um limite, seja qual for a distância a que se encontre. Este estado de espírito, fonte de todas as paixões generosas assim como de todas as idéias filosóficas, é que inspira, em especial, a poesia do norte.

 



[1] Erse: língua dos primitivos irlandeses e escoceses, pertencente ao grupo gaélica e falado ainda hoje na alta Escócia.

[2] Eda: Antiga literatura islandesa reunida em dois volumes, do século XIII, o primeiro designado Prosa ou Eda mais recente e o segundo como Poética ou Eda mais antiga.



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