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Do amor divino. Do amor poético. Quando estamos guiados pelo amor divino, tudo encerra muita alegria e muita paz!

segunda-feira, 29 de junho de 2020

O livro dos prazeres - Clarice Lispector


CLARICE LISPECTOR (1920-1977)– Ler Clarice é dum prazer imenso; reler, nunca é demais: redescobertas. Principalmente: aprendizados. Essa adorável escritora consegue me embalar numa viagem insólita por seu feitiço artístico. E eu aterrisso renascido na última página de qualquer de sua obra.

Mesmo tendo nascido nas longínquas terras da Ucrânia, ela se dizia pernambucana. Era ela de origem judaica e duma família de fugitivos judeus da Guerra Russa dos anos 20. Talvez seja esse um dos pontos que mais me fascinam nos seus mistérios: os teores místicos, esotéricos.


UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES DE CLARICE LISPECTOR 

 [...] E ali estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. [...] Ela tivesse a intenção de um dia dar-se, pois sabia que teria de dar a alguém o que ela era, senão o que faria de si? [...] E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. [...] Às vezes de noite acordava em sobressalto sentindo a falta de Ulisses, como se tivesse alguma vez dormido com ele. E não conseguia readormecer porque o desejo de ser possuída por ele vinha forte demais. [...] sabia no entanto que o fato de desejá-lo tão intensamente não queria dizer ainda que ela avançara. Pois antes também desejava os seus amantes e não se ligara a nenhum deles. [...] Então, como tudo ia acabar, em imaginação vívida, pegou a mão livre do homem, e em imaginação ainda, ao prender essa mão entre as suas, ele doce ardia, ardia, flamejava. [...] E por enquanto ela não tinha nada a lhe dar, senão o próprio corpo. Não, nem o próprio corpo: pois com  os amantes que tivera, ela como que apenas emprestava o seu corpo a si própria para o prazer, era só isso, e mais nada. [...] Foi nesse estado sonho-deslumbre que ela sonhou vendo que a fruta do mundo era dela. Ou se não era, que acabara de tocá-lo. Era uma fruta enorme, escarlate e pesada que ficava suspensa no espaço escuro, brilhando de uma quase luz no espaço escuro. E que no ar mesmo ela encostava sua boca na fruta e conseguira mordê-la. [...] Eles se haviam possuído além do que parecia ser possível e permitido, e no entanto ele e ela estavam inteiros. A fruta estava inteira, sim, embora dentro da boca sentisse como coisa viva a comida de terra. Era terra santa porque era a única em que um ser humano podia ao amar dizer: eu sou tua e tu és meu, e nós é um. [...] Ele se interrompeu beijando demoradamente sua carne perfumada. E ela de novo caiu na vertigem que a tomou, e era de novo feliz como um ser pode morrer de felicidade. E de novo pela quarta vez eles se amaram. [...] Foi um sobressalto que ela sentiu a mão dele pousar no seu ventre. Não havia nesse momento sensualidade entre ambos. Embora ela estivesse cheia de maravilhas, como cheia de estrelas. Ela estendeu então a própria mão e tocou-lhe o sexo que logo se transformou. 

REFERÊNCIA: LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.


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